Educação e Poder – caminhos dos domínios da economia do conhecimento

Apesar da difusão dos ideais iluministas da solidariedade e da igualdade e da crescente tentativa de democratizar o conhecimento, constatamos decepcionados que na atualidade há um inegável aumento do apelo individualista e das tendências de uma sociedade cada vez mais orientada para o egocentrismo.

É interessante como o espírito do individualismo enraizou-se facilmente na cultura brasileira, encontrando aqui campo muito fértil, inclusive entre pessoas que tradicionalmente apresentariam mais sensibilidade e visão holística das questões sociais.

Recentemente, participando de um congresso internacional de educação, presenciei o discurso de vários graduados nas diversas ciências e tive oportunidade de colher tristes opiniões sobre a educação no Brasil, especialmente no que se refere ao acesso à educação superior e aos níveis mais altos de produção científica e intelectual. Escutei com espanto o depoimento de alguns acadêmicos que manifestavam preocupação bastante curiosa: alegavam que, se o acesso a programas de mestrado e doutorado mantivesse os requisitos de acesso atuais e as vagas, daqui a alguns anos teríamos um excesso de mestres e doutores no Brasil, razão pela qual se deveria dificultar o acesso a mestrados e doutorados por meio de processos seletivos mais rigorosos e exigências suspeitas, mantendo um número circunscrito de pós-graduados e preservando, ao mesmo tempo, o glamour do título e o mercado de trabalho para aqueles afortunados que conseguiram alcançar a titulação, uma reserva de mercado.

Essa lei da oferta e da procura na razão inversa ressalta como funciona o centro do pensamento acadêmico brasileiro, ou pelo menos, de parte dele. Contrário à filosofia que deveria incentivar ao máximo a continuidade da formação escolar e acadêmica, num Brasil que ostenta vergonhosos índices de educação em todos os níveis, esse tipo de pensamento me fez questionar as raízes dessa preocupação que até o momento se me parece infundada.

Os dados do censo da educação superior de 2017 do Inep – Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, mostram claramente que a equalização da formação docente começa a se mostrar efetiva entre universidades e faculdades públicas e particulares, minimizando o gap de qualificação docente entre as duas possibilidades de formação no nível superior e aproximando os percentuais de professores com mestrado e doutorado nas duas linhas, ao passo em que claramente se reduzem os percentuais de professores apenas com especialização, o que era na verdade a maioria nas décadas anteriores.     (fonte: http://download.inep.gov.br/educacao_superior/censo_superior/documentos/2018/censo_da_educacao_superior_2017-notas_estatisticas2.pdf).

Ainda assim, esse avanços não nos permitem deixar de notar que ainda há muito por ampliar a quantidade/qualidade de mestres e doutores e que está claro que não se pode classificar como excesso uma categoria de pós-graduados que representa, ainda e apenas, menos de 1% da população brasileira.

Mesmo crescendo em torno de 10% ao ano, o nosso numero de mestres e doutores ainda é muito pequeno em relação a outros países, bem como o numero de patentes e inventos, não exclusivamente pelo fator formação, obviamente. 

Um estudo entre países membros OCDE mostra que o Brasil ocupa a 26° posição na escala de número de títulos de doutorado concedidos por grupo de 100 mil habitantes, e de fato sabemos o quanto ainda é necessário que os mestres e doutores encontrem também campo de trabalho digno na iniciativa privada, não se dirigindo quase que unicamente ao campo do ensino em universidades e faculdades.

O que faz um educador manifestar opinião tão contraproducente em relação a sua missão primeira? Como falar de educação sem abrir as portas do pensamento científico aos que já nele puseram os olhos arregalados da compreensão? E, finalmente, como erradicar a ignorância do povo, o analfabetismo, a fome, a corrupção, as doenças que podem ser prevenidas, a baixa produtividade, o atraso social e econômico, se a intelectualidade (parte dela) age como elite, guardando para si o conhecimento como fonte de privilégio e saber?

No ciclo do açúcar somente os abastados e filhos de donos de engenho eram mandados aos estudos em França, Coimbra, Lisboa, enfim, para Europa onde circulavam o conhecimento, as ideias, as últimas invenções da ciência. Passados séculos, ainda hoje no Brasil somente uns poucos detêm o conhecimento.

Se o acesso ao conhecimento foi democratizado através das bolsas de pesquisa e iniciação científica, parece que o saber ainda é tido como propriedade privada e, com efeito, aqueles que sabem mais, mais têm oportunidades e são mais bem remunerados. Estes mestres e doutores que emitem esta opinião, uma vez de posse do título, parecem tramar em surdina um projeto de golpe contra aquilo que por toda vida deveriam ter lutado.

Parecem querer só para si o conhecimento que acumularam guardando o tesouro com as mãos sujas em busca de vantagens pessoais e a manutenção dos privilégios de outrora. Estariam os mestres e doutores preocupados em salvaguardar seus empregos ou em promover o acesso ao conhecimento? Importante lembrar que uma parte, senão a maioria, desses mestres e doutores teve sua formação financiada com dinheiro público. Assim, temer um suposto excesso de mestres e doutores no Brasil é grande equívoco. E justo agora que a sociedade se dá conta de que a única revolução possível se fará pelas salas de aula.

A luta que tem sido travada diariamente no Brasil para levar a educação a todos estaria, então, de todo sendo esvaziada de sentido se elas apenas pudessem chegar à educação básica. Seria doloroso ter que reconhecer que o ópio do capital se apropriou também da última ideologia do saber. A educação diariamente nos dá mostras de seu poder e infortúnio, agonizando nas classes sem professores, nas escolas sem bancas, nas bibliotecas sem livros ou mesmo nas classes sem alunos em inúmeras escolas em busca de existência, mas não plena ainda.

Espero que toda sociedade entenda que o conhecimento é direito de todos e não privilégio de uns poucos, que releiam Paulo Freire, e voltem a entender que o verdadeiro mestre é aquele que, de repente, aprende. Isso se em nosso tempo isto não for utopia demais.
Ana Morais

Publicado originalmente em 03/06/2019

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Foto por Markus Spiske em Pexels.com

Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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