A idade da razão – ou a cruel perversidade brasileira com profissionais maduros.

Muito interessante iniciarmos uma reflexão sobre as oportunidades laborais para as pessoas maduras ou com mais de 40 anos no Brasil. Quero contribuir aqui com alguns pontos para esse debate, especialmente no que se refere às mulheres e às super exigências que elas enfrentam desde a entrada no mercado até a saída, por vezes desanimadoras.
Inicialmente é importante reconhecer o quando a idade é um atributo desvalorizado no Brasil e funciona como alguma coisa que ao contrário de gerar respeito e valorização como em outras culturas, gera humilhação e segregação social.
Particularmente o caso dos idosos brasileiros é marcado por lutas e dificuldades, onde parecem privilégios ter uma fila exclusiva ou uma vaga de estacionamento, mas a verdade é que uma fila pequena ou uma vaga de estacionamento são apenas lenitivos diante de uma velhice desamparada e com cerca de 40/50 % de gastos da receita familiar com remédios e saúde. Nesse caso considero esses benefícios apenas uma gentileza urbana depois de uma vida de impostos e trabalho.
O fato mais relevante é que o culto à juventude (bem como a todas as outras coisas passageiras e sedutoras que são exageradamente valorizadas na atualidade como a hiperinovação, além do amor pela efemeridade das coisas – ver Lipovetsky) é extremamente nocivo ao país, que está chegando à curva da maturidade e onde praticamente só há vagas e projetos para jovens, muitos deles inseguros e sem experiência para a tomada de decisão, o que gerou esse inacreditável onda de oferta de coaching, sem precedentes no mundo.
Esse culto à juventude e as capas de revistas de negócios com seus CEO’s saindo das fraldas colabora para a implantação de uma cultura onde ser jovem confere superpoderes e status, e ser maduro ou mais velho lhe tira da jogada. Cruelmente, se consolida uma vitória da juventude sobre as competências, o que soa estranho num mercado que a cada dia se esforça para ser mais competitivo globalmente.
Tem sido comum também ver uma diferente dança das cadeiras nas empresas: profissionais seniores são demitidos e substituídos por trabalhadores mais jovens, mas não apenas por isso, pois eles servem também ao interesse do trabalho máximo pelo custo mínimo, já que são contratados muitas vezes até por apenas 50% do salário de um funcionário mais experiente. Essa reengenharia que vem sendo feita no país desde os anos 90 e sem previsão de acabar, comprimiu incrivelmente a massa salarial e deixa o termo “`a combinar” cada vez mais vazio de possibilidades em termos de negociação salarial, já que, entre o desemprego persecutório e a opção de ganhar menos apesar da extensa formação e experiência, os trabalhadores com mais idade se rendem sem ter muito que negociar. É o balcão do emprego, o leilão de executivos e super qualificados.
A juventude é uma importante fase da vida, entretanto é importante ter os olhos no futuro, já que é impossível permanecer jovem e a idade chegará para todos os que tiverem sorte de sobreviver às batalhas diárias no Brasil, que envolvem desde a violência urbana até mesmo a violência fatal contra mulheres, mais uma vez atacadas em suas fragilidades por conta apenas do fato de serem mulheres.
A maturidade se nos apresenta como uma fase de desafios e provações, especialmente num país como o Brasil onde quase tudo é pensado apenas para a juventude e idade média.  A faixa de pessoas em idade produtiva (PIA) e 40+ no Brasil já crescem significativamente e em cruzamento com o decréscimo das taxas de natalidade, é algo em que as empresas têm de pensar, para além do discurso sobre inclusão. Mesmo sabendo do envelhecimento populacional, falta sensibilidade para tratar o tema, pois se em 2030 o Brasil será a quinta maior população idosa do mundo, hoje ignora completamente as demandas dessa faixa populacional.
A procura de emprego após uma certa idade, mais precisamente depois dos 45 para as mulheres é ainda pior e se torna muitas vezes uma sequencia de frustrações e humilhações. Além de ter que lidar com as cobranças e preconceitos usuais, elas (nós) ainda têm que superar a discreta desconfiança sobre suas competências e habilidades, sobre a capacidade física de aguentar os expedientes denominados flexíveis e a quase indisfarçável exigência de frescor da aparência. É triste dizer, mas essas coisas são observadas e confessadas pelos profissionais de RH com uma ponta de vergonha e muita sutileza, basta ler os posts de RH’s no Linkedin.
Para os homens também não é fácil, terá de seguir as tendências (seja lá o que isso quer dizer), aderir aos cortes de ternos mais modernos, relógios, aplicativos, terem uma startup, ter o celular mais caro e conhecer esportes e finanças, entender a bolsa de valores, fazer viagens com até 80% do tempo de trabalho fora da base, ou seja, esquecer a família, enfim, parecer moderno e necessário, saber de tudo e ao mesmo tempo de nada – “apresentar espírito de aprendiz”, isso tudo a ponto de excluir a possibilidade de qualquer julgamento sobre sua capacidade de trabalho na atualidade.
Além disso, quem tem mais de 30 anos tem de enfrentar outra avalanche de exigências prévias e em serviço. Uma delas é a constante necessidade de atualização. É preciso fazer cursos, atualizações, MBA, LLA, pós-graduação e muitos outros programas de desenvolvimento a fim de comprovar a capacidade adaptativa e a vontade de aprender cada vez mais e mais, muito embora nem sempre os investimentos em educação encontrem correspondência direta com a produtividade, qualidade de vida e/ou a remuneração.
O importante aqui é estar informado, ser disruptivo e dominar termos como inovação, propósito, consumo, mercado, diversidade e inclusão. Por fim, há que se impor fazer muitos cursos, sob pena de parecer desatualizado e, se por acaso o profissional fez a graduação numa faculdade popular, os especialistas do Linkedin recomendam fortemente “limpar” o currículo com um MBA de primeira linha em uma Universidade reconhecida.
Por fim, tem que falar inglês fluentemente, tem que ter um MBA no exterior, ser sócio de um influente clube de privilegiados, gostar de vinho, fazer atividade voluntária, entender de finanças, fazer esportes, compreender as alianças políticas globais, ser ativista em causas humanitárias, manter atualizados seus aplicativos, entender o poder das mídias, vender uma boa imagem nas redes sociais e, por isso tudo, aceitar um pacote de vantagens e benefícios cada vez menor e o salário de mercado oferecido. Se o profissional tiver o “perfil aderente”, estará contratado. Será um vencedor se for empregado depois dos 45.
Entraram em campo um súbito discurso sobre propósito e flexibilidade que a geração de 40/50 anos não compreende muito bem, e esse discurso domina o debate e as campanhas publicitárias, implantando um sub sistema de valores que é visível em todas as mídias, muito embora a gente saiba que para a maioria das empresas, no final do exercício fiscal, o que importa mesmo são os resultados e o balanço publicado e apresentados aos acionistas.
Mas dentro do mundo corporativo receio que esteja sendo difícil para muitas pessoas e ainda mais para as mulheres atender a tantas super exigências e deixar cada vez mais de lado as verdadeiras conexões com a sua humanidade e a natureza de sua rápida existência.
A saída é pelo empreendedorismo e pode levar os profissionais de 40+ às grandes surpresas e reviravoltas profissionais e econômicas. É o caso da empresária carioca Alzira Ramos, de 71 anos, que depois dos 60 perdeu o emprego e se debateu durante muito tempo em busca de emprego formal. Depois de perceber que não iria encontrar mesmo um emprego, e com as contas chegando impiedosamente, resolveu empreender e fundou a Fabrica de Bolos Dona Alzira, que hoje já tem mais de 200 lojas franqueadas no Brasil. Convidou o marido e o filho a se juntar á empreitada e hoje se declara realizada em sua nova jornada profissional.  
Outro importante fator de reposicionamento é pelo conhecimento intelectual na configuração de grupos de consultorias empresariais. Já que as empresas precisam dos conhecimentos e competências dos profissionais sêniores, mas, em geral, preferem não pagar por isso, podem ainda recorrer ocasionalmente às consultorias onde grupos de homens e mulheres tem se juntado e apoiado mutuamente, a fim de constituir uma força e organização de trabalho onde toda experiência e capacidades acumuladas ao longo de muitos anos de acertos e erros (sim, o erro pode e deve ter um fim didático e formativo no mundo corporativo) se mostram importantes nos campos operacionais ou estratégicos.
Longe dos modismos empresariais, os profissionais de mais de 40 anos de idade que estão em busca de emprego são um importante elo de gerações e são em geral muito capazes, e só querem poder continuar vivendo e trabalhando dignamente, oferecendo o que há de melhor em sua trajetória, formados que são para vencer e se adaptar, somando e aprendendo como sempre fizeram antes de serem injustamente considerados ultrapassados. As oportunidades e os requisitos podem ser revisitados com um olhar mais compassivo para essa faixa de pessoas que só cresce e que, a cada dia, mostra o quanto é capaz de colaborar superando desafios muito maiores que sua data de nascimento.
Referências
O império do Efêmero – de Gilles Lipovetsky
Hiperinovação e Hiperconsumo – de Gilles Lipovetsky
https://jornal.usp.br/atualidades/em-2030-brasil-tera-a-quinta-populacao-mais-idosa-do-mundo/
https://revistapegn.globo.com/Mulheres-empreendedoras/noticia/2018/09/apos-perder-emprego-aos-60-anos-ela-criou-franquia-de-bolos-com-mais-de-200-lojas.html

Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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