Emprego e juventude: consequências para empregabilidade de jovens e pessoas maduras

A anos que a sociedade ocidentalizada vem enfrentando um dilema brutal: ao mesmo tempo em que muitas populações confirmam a tendência ao envelhecimento populacional, cresce na mesma proporção o culto à juventude e o endeusamento de aparências jovens como preponderantes nas mídias e demais representações imagéticas atuais. 

No campo laboral o conflito se confirma e paralelamente à tão sonhada agenda inclusiva, cresce assustadoramente o número de desempregados na faixa de 45 anos. Um conjunto severo de ações intencionais, convenções sociais e imagens leva as empresas e departamentos de recursos humanos a intensificar a busca por profissionais jovens, deixando à margem um número imenso de profissionais mais maduros que tem tanta ou mais competência. Obviamente ninguém admite esse viés, mas as estatísticas do MTE e os depoimentos  no Linkedin revelam a face mais cruel do “mercado” de trabalho. 

Esse padrão de juventude que se vincula fortemente à imagem de corpos bonitos, pessoas intrépidas, aparentemente bem sucedidas, atitude arrojada e alto conhecimento e domínio de tecnologias e cria na cabeça das pessoas uma necessidade de atender esse perfil já que permanentemente deixa claro que a pessoa de sucesso é a pessoa jovem. Como vemos que isso virou quase uma norma social, tirando da dança das cadeiras profissionais os candidatos com mais de 45 anos, e ainda se fizermos um recorte as mulheres são ainda mais afetadas por todo conjunto de ideal de imagem que se vincula à produtividade e sucesso, isso se torna um tema preocupante e difícil de combater. 

Tema recorrente nos maiores fóruns e eventos nacionais, a inclusão de 45+ é quase um mito quando cerram as cortinas, e longe da ação inclusiva de fato, se torna apenas um tema genérico para amplo debate sem repercussões na empregabilidade das pessoas fora do requisito de idade, legalmente impossível de ser exigido. 

Junte-se a isso uma infinidade de prêmios, reconhecimentos e validações sociais e corporativas (Forbes Under 30, PJB, Jovem Empresário, Jovem Empreendedor, Prêmio Jovens Campeões da Terra, etc etc etc) que, intimamente ligados às imagens já um uníssono nas mídias, propalam ainda mais os referencias de juventude e sucesso como os válidos e aceitáveis também no mundo corporativo. 

Essas concepções quase normativas levam as pessoas com mais de 45 anos a vivenciarem permanentemente um sentimento de mal estar e inadequação, vivendo e buscando recolocação ao mesmo tempo em que tentam provar que tem as competências requeridas pelo mundo do trabalho, evitando os julgamentos, e se mostrando aptos ao trabalho, à vida social e à criação, mesmo tendo sobre suas cabeças um persistente objeto persecutório do qual nunca podem se livrar – o tempo.

Desde Bauman em Modernidade Líquida (2001) e Lipovetsky em O império do Efêmero (2009) muitas organizações e pessoas vem se esforçando para discutir e mudar a realidade de exclusão de pessoas com mais de 45 anos nos centros econômicos, na publicidade e no cenário do trabalho. Mas, na verdade, essa realidade pode ser ainda pior e mais cruel, até com pessoas com menos idade, circulando para bordas laterais sociais, financeiras, culturais e até físicas, ou mesmo criando pressupostos laborais exclusivamente baseados em crenças pessoais e de cultura. 
Adeptos de uma lógica profundamente marcadas por valores da modernidade (individualismo, consumismo, volatilidade e monetização) esses prêmios terminam por afetar as ambições de contratação das empresas, que querem cada vez se vincular à essa imagem de empresas jovens, competitivas, tecnológicas, supostamente disruptivas, inovadoras e inclusivas. 

Finalmente, mas não só, há outra corrente que se insurge insidiosamente nos departamentos e empresas em geral, algo que tem a ver com a própria concepção de modernidade (em Jameson – novos tipos de consumo, celeridade, fast moda e fast tudo, obsolescência programada, impacto da propaganda, redes sociais e mídia em níveis nunca observados) que é a orientação quase generalizada de que as pessoas se adequem à esse movimento e busquem uma postura passiva em que, basicamente: sejam uma marca, “vendam” uma imagem alinhada a esses valores, portem-se como “produto” diante de vagas nas empresas e companhias, sejam uma cópia da imagem corporativa vigente, e portanto, um objeto. Mas não um objeto qualquer, senão um objeto segundo essas normas sociais em sua juventude. 

Atualmente, não basta apenas ser platéia dessas imagens e ideais hipermodernos, é preciso também e incansavelmente encarnar esse modelo e levá-lo às ultimas consequências, colocando à serviço da empresa além de toda capacidade criativa e de trabalho, também a sua imagem, o estilo de vida, os desejos de consumo e a veneração inconsciente de padrões inatingíveis de idade e imagem. Essa condição não é para todos, obviamente, e segue rígidos padrões de julgamento cujas reias motivações são indeclaráveis. 

Hoje, quase todas as empresas falam em inclusão, diversidade, agenda positiva e empoderamento, mas quase nunca usam uma foto ou referência com mais de 45 anos para isso. A vida real, muito além dos posts de instagram e das fotos idealizadas nas mídias sociais, requer essa reflexão e análise e sobretudo, depois de tantos debates e discursos, requer um conjunto de ações concretas na direção de uma inclusão verdadeira que leve em consideração novos valores, mais evoluídos que esses em voga, valores que acolham o tempo, a experiência, a vivência e a idade como positivos e não como desclassificatórios.

Semana passada mais um evento aqui em SP discutia a mulher de 45+ no mercado de trabalho. A proposta era um grande verdadeiro pensar na mulher e no cenário do trabalho local, e como é importante discutir e relativizar o conceito dominante de que a juventude é mais capaz. No debate sobre etarismo, o Universia Talks trouxe num painel seis mulheres de mais de 45 anos que com serenidade e criatividade mostraram que há caminhos possíveis oferecendo possibilidades de diminuir o sofrimento psicológico com o qual muitas pessoas são obrigadas a conviver sem ter culpa do tempo passado e da idade. 

Esse padrão imperativo de juventude tem muito a dar, mas não é, e jamais foi a referência ideal, ele pode se coadunar com valores modernos muitos arraigados até mesmo para serem percebidos e admitidos, mas não são o bastante em si, pois negam a natureza da vida e do percurso humano. 
A idade não é algo para se envergonhar e sim uma marca do tempo, inevitável para todos, que pode ser vista com otimismo, respeito e sinal de aprendizado e experiência. É o que todos vamos passar e sentir um dia, então, por que promover valores tão contraditórios supervalorizando o passageiro e negando o tempo inexorável? 

Assim, milhões de desempregados (e desempregadas), com contas a pagar, com inteligência e capacidades, força e muita vitalidade ainda, mas carregando consigo a marca indelével do tempo, sofrem ao serem rejeitadas repetidamente em variados processos seletivos cuja resposta ao final (decidimos não seguir com você no processo) é quase sempre uma discreta reprovação ao tempo já passado. 

Relegados à processos seletivos sem fim, a uma agenda impositiva de juventude e a permanentes julgamentos discretos ou nem tanto sobre a sua capacidade física de trabalho, muitas pessoas 45+ compreendem rápido quais as reais possibilidades de recolocação e entendem que é melhor partir logo para para outras paragens, de onde nasce, felizmente, o empreendedorismo, perfis reais e de amplo alcance entre os maduros, empresas de consultoria magníficas e grandes e experientes professores de negócios. 

Temos um aprendizado importante e urgente aqui! 

Ana Morais

Jovem de 45+

Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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