Ensinar e Aprender em tempos de crise

A pandemia do corona vírus nos colocou de frente com várias limitações humanas e nos levou a questionar muitos hábitos e valores da contemporaneidade. O lugar central do trabalho permanece inabalado em função dos modelos econômicos e sociais e num país emergente como o Brasil uma crise como esta deixa atrás de si um rastro de males e sequelas econômicas e institucionais  que só é superável com o tempo.


Entretanto, como diz a professora Claudia Siqueira, “essa parada que nos fez avançar quilômetros” está construindo um novo olhar sobre as possibilidades de interação e colaboração real entre as dinâmicas do trabalho e as tecnologias. É  um momento novo e único para o mundo e um Brasil que mantinha ainda velhas tradições laborais enquanto tentava se passar por interessado nos avanços da tecnologia e da inovação. Era quase um blefe, mas agora se transformou subrepticiamente em realidade.
No caso do Brasil a crise trouxe consigo uma oportunidade imensa de aprendizado coletivo.  Aprendemos a trabalhar em casa e, segundo alguns estudos mais rasos, com alta produtividade, aprendemos a dominar novas tecnologias e buscar interação, aprendemos a redistribuir tarefas e afazeres de forma mais equilibrada, aprendemos a lançar mão de inovações tecnológicas para aumentar a conexão e entrega usando novas formas e outras não tão novas assim. Aprendemos o novo.
Repentinamente a capacidade de fazer no modelo remoto ou à distância se potencializou no Brasil e tudo que podia ser feito por meio da tecnologia, está sendo feito. Da melhor forma? Não sabemos, mas com certeza sabemos que é possível. 

É claro que lançar um olhar sobre esse momento de aprendizagem coletiva não é simples. Ele parte de um ponto de vista (local tecnológico, cultural e geográfico privilegiado em SP – coração tecnológico do país) mas ele levanta a possibilidade real do fazer ancorado em outros modos laborais e essa possibilidade se materializa  a cada dia, e cada empresa e nas pessoas. Não sem algum sofrimento, o que é natural, mas ele se concretiza.

Muitas empresas ainda estão correndo atrás do digital, outras já tinham essa vantagem competitiva  e fizeram a largo a transição de modelo do presencial para o 100% on line e estão à frente já discutindo um novo mercado. Mas não é a mesma coisa em todo país, o Brasil é enorme e as realidades são bem diferentes em cada região, também alguns segmentos de mercado avançaram mais, outros mais conservadores,  passaram pela fase de se debater e choramingar, mas depois viram que era perda de tempo e buscaram a adaptação.
No geral, a população brasileira está ainda se ajustando, aprendendo e ensinando sobre esse momento crítico, especialmente é um momento delicado quando consideramos a questão de lidar com os riscos e ameaças à saúde pública e individual. Por conta dessa tensão verdadeira e dos perigos efetivos, muitas empresas e pessoas estão aterrorizadas e precisam de tempo para acolher, entender e se adaptar. É um processo antigo, mas necessário questionar o “como” fazíamos as coisas e por que temos de mudar AGORA. 

Nesse contexto de aprendizagem coletiva o ensino ganha projeção.Afinal, ensinar um país a viver no modo remoto e on line não é tarefa fácil. É um desafio continental, exige um batalhão de mentores e instrutores, um mar de Lives e sobretudo exige muita disponibilidade, paciência, capacidade de se colocar no lugar do outro e sensibilidade. As escolas sabem bem do que eu falo aqui. Todo setor da educação está em um verdadeiro movimento de reconfiguração, mesmo aquelas que relutavam em aceitar ou acolher em parte o modelo à distância tiveram que se resignar e promover o formato, sob pena de perder o ano e a fatia de mercado. Apesar da ameaça real e imediata do Covid-19, a vida não pára.
É de fato um momento ímpar (recuso-me ainda a chamar de novo normal, pois para mim ele não se estabeleceu em sua forma natural) e exige que as lideranças desempenhem sua função formativa que envolve: orientar e estabelecer prioridades nas novas atividades, ensinar ou mediar o ensino e apreensão de novas tecnologias e aplicativos, fazer sessões de orientação e treinos, fazer capacitações virtuais com equipes multidisciplinares, realizar reuniões e análises densas em meios on line sob uma configuração doméstica, entres outras e outras atividades educativas com foco no trabalho. 
Essa face educativa de muitas empresas só veio à tona agora e elas estão desenvolvendo com muita habilidade um saber educativo, as habilidade de ensinagem, observando os conceitos possíveis e estabelecendo relações de premência, criando e estabelecendo conhecimentos  empíricos em todos os níveis, o que desafia no geral os processos educativos, num novo formato assíncronos e não simultâneos. Agora, todos estão aprendendo ao mesmo tempo, em variados graus de profundidade.
É na crise  que se movimenta a competência do equilíbrio e da solução de problemas. Não quero aqui dizer que será igual para todos, pois, como em toda escola , há os níveis e as demandas pessoais se impondo e gerando novos e desafiadores exercícios de prática, mas para todos será um aprendizado cultural do possível, do imaginário se desdobrando nas rotinas, da realidade social e tecnológica se colocando de modo imperativo como  nunca antes. 
E talvez esse seja o maior aprendizado: a importância e atualidade do conceito life long learning se fazendo parte de nossa rotina de aprendizagens e como ensinamos isso aos nossos filhos e colegas de trabalho, lançando uma visão otimista para o futuro do trabalho e das interações sociais e laborais, sabendo que poderemos contar com outras formas de fazer que são ao mesmo tempo inovadoras e atemporais.
Todo aprendizado carrega consigo uma parcela de dor, de abandonar velhos conceitos e de fundar os novos, sem a certeza de que estamos fazendo o correto, mas com a serenidade de que estamos fazendo o melhor possível nesse momento. E por si só isso já um grande avanço na direção de uma sociedade onde a educação tem o justo lugar de destaque e importância, sendo que no futuro, vamos cada vez mais poder aprender com as experiências do passado sem nenhum receio de que isso seja uma desvantagem, mas sim uma capacidade admirável de olhar passado e futuro como parte indissolúvel da vida, trabalho e tecnologia como complementares e ensino e aprendizagem como uma só coisa e um só processo.

Esse aprendizado fica na história. 


Ana Morais

Professora, consultora e especialista em formação de pessoas para o verdadeiro desenvolvimento social.

Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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