Por que as pessoas mentem no currículo?

O recente episódio do quase ministro, o senhor Carlos Decotelli, e as “inconsistências” verificadas no currículo dele após a nomeação nos põe a pensar sobre as motivações que levam pessoas dos mais variados níveis a mentir no currículo.

Com uma nomeação na porta o ministro se viu às voltas com um currículo que mais parece um jogo Resta 1. A cada nova inconsistência encontrada (doutorado inexistente, pós-doc falso, dissertação de mestrado com suspeita de plágio) um ajuste era providenciado de modo que, ao fim, ficou apenas com a graduação intacta. Por enquanto.

Por que alguém com, segundo ele afirma , mais de 50 anos de experiência docente se vê impelido a mentir sobre diplomas e formações, mesmo quando não é uma exigência do cargo?

Por que tantas pessoas fazem esse tipo de maquiagem no currículo na tentativa de parecer ser mais ou ter mais formação e experiência do que realmente têm?

Primeiro vamos pensar que esse hábito é comum nos ambientes de recrutamento e seleção, e nas redes sociais hoje em dia e como é também comum no Brasil o hábito de não fazer verificações e checagens em currículos e documentos.

Esse desejo de ampliar as próprias habilidades de forma milagrosa é algo comum nas candidaturas, mas pouco explorado em ambientes políticos. Isso leva a um reforço da cultura da credibilidade oferecida pela ciência e pela educação, uma credibilidade que muitos não merecem ou de fato não tem, mas por outro lado, também cria uma caminho fácil para aqueles que querem um atalho para a qualificação apresentando informações falsas pois sabem que não será verificado.

Simplesmente colocar a informação de que tem um mestrado ou doutorado não exime a pessoa de apresentar a comprovação acadêmica.

O mesmo vale para as supostas credenciais veiculadas nas mídias ou até mesmo aqui nos perfis do LinkedIn: criador do primeiro site do Brasil, fundador de startup unicórnio, representante da ONU, criador do primeira coca-cola do deserto, aluno de Oxford, etc.

Outro dia entrevistei um candidato em cujo currículo figurava um curso em Harvard como sendo uma especialização, ao ser questionado (pois não havia cópia do certificado e nem a carga horária) confessou que na verdade tinha sido um bootcamp. Nada contra, mas há uma diferença enorme entre um acampamento de verão e uma especialização.

Anos atrás uma gerente da minha divisão foi convidada para dar uma palestra num congresso internacional. Receosa de não parecer muito inteligente ou de não ter um currículo à altura e ser legitimada ( apesar da boa experiência educacional) ela me consultou sobre se seria muito “feio” colocar no mini currículo que era aluna do mestrado. Eu perguntei: você é aluna de mestrado? e ela respondeu que tinha trancado.

Honestamente recomendei que ela colocasse só as informações verdadeiras, já que hoje, com a internet, cada informação pode ser checada e seria constrangedor alguém descobrir que ela na verdade não estava vinculada a nenhum programa de pós-graduação.

Por um lado acredito que a alta competitividade leva as pessoas a falsificar informações. Elas querem parecer especiais, inteligentes e criativas, ter status social e profissional para valorizar o passe. Querem ter feito algo de especial e não se conformam com um currículo “comum”. Mas esse tido de estratégia fraca e de pernas curtas, como toda mentira, só serve para depor contra valores importantes como honestidade e seriedade profissional.

É preferível dizer a verdade sobre sua formação e experiência do que passar um vexame desse porte, especialmente um alto cargo da administração nacional, um ministro.

Ademais, vida acadêmica, diploma de mestrado e doutorado é para quem realmente o fez. Significa dedicação, estudo, pesquisa, cumprimento de prazos e capacidade de defesa de argumentos e pesquisas científicas que são validadas por uma universidade. Não é um lero-lero do qual se lança mão para causar boa impressão e sim uma prova do apreço e devoção ao conhecimento, uma prova cabal de um grau de estudos concluído e da contribuição da pessoa para o conhecimento.

Nas mídias sociais nós também vemos de tudo: até tive um colega que dizia que tinha criado o primeiro site do Brasil, mas no próprio site dele não havia nenhuma menção à esse feito. Estranho não? Outra colega se auto intitula representante da Onu Mulheres, mas quando foi dada essa representação? onde? quem comprova?

Já é difícil acreditar nas pessoas e ainda mais quando elas pioram a nossa cultura de jeitinho dizendo: vou colocar aqui no meu currículo isso e aquilo, ninguém vai checar mesmo.

Mentir no currículo é feio, desonesto e desleal. Tira de você a verdadeira face que você tem e aplica sobre si uma tintura barata que facilmente cai com um par de perguntas. Principalmente, tira de você o direito de falar novas verdades, pois elas vão se misturar com mentiras ordinárias e levar consigo a importância que têm.

Ao contrário do ministro, seja leal às suas origens, formação e experiência. Isso ninguém desmancha!

Ana Morais

Professora, consultora, especialista em competências

Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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