A indústria da loucura

Como a indústria farmacêutica e o marketing médico e de serviços têm levado milhares de pessoas à beira da loucura (ou a acreditar nela), especialmente as mulheres.

Louca não! Louca não!

É assim que uma influenciadora mirim brinca coma cultura da loucura feminina na redes sociais, lançando um olhar bem humorado sobre um tema crítico e complexo.

Mas o fato é que a brincadeira de chamar as mulheres de loucas, largamente aceita na nossa cultura, está na ponta de um longo e maquiavélico processo de fundo econômico e social que tem apresentado sérias repercussões e consequências, nem sempre percebidas como nocivas, por conta de sua abordagem falsamente em defesa da saúde. É a ponta do iceberg.

Essa cultura que falsamente nos apoia enquanto na verdade nos faz reféns está primorosamente arquitetada dentro da economia e do marketing e tem dado sinais muito claros de sua capacidade de escravizar, especialmente mulheres, na cela da dependência permanente da relação comercial de compra de serviços e produtos que vão desde os remédios até os serviços especializados de saúde em geral e suporte de outras naturezas.

Obviamente sou plenamente à favor da psicologia, da educação física, de todas as terapias e serviços de suporte à saúde, especialmente à saúde mental e física que apoia as mulheres e as ajuda a sair de círculos nocivos de racionamento e de situações desfavoráveis.

Mas usar preponderantemente a imagem da mulher para descrever esse conjunto de serviços, recriando e reforçando a imagem da mulher “louca”, nervosa, instável, desequilibrada e permanentemente necessitando de ajuda psicológica chega a ser um crime de natureza social e coletiva contra as mulheres.

Na verdade, a constituição de uma imagem feminina desequilibrada e permanentemente necessitando de cuidados médicos e psicológicos/psiquiátricos faz parte de uma muito bem engendrada arquitetura econômica, que está à serviço de uma ampla e bem inserida indústria fármaco-química e de uma legião de terapeutas, mediadores , facilitadores e de nova infame moda de coaching de toda sorte, desde para relacionamento até financeiro.

Para se assegurar do que menciono é possível obter algumas referências em obras de ampla repercussão como: Lipovetsky em A terceira mulher; Estés “Mulheres que correm com lobos; Mulheres, Mitos e Deusas de Martha Robles, e muitos outros. Essas obras apresentam um marcado científico sobre como a mulher vive hoje em sociedade e como ela é representada.

Para sustentar essa gigantesca estrutura econômica, é necessário veicular sempre, incansavelmente, uma imagem visual da mulher como fraca, instável, emocionalmente insuficiente e centro da demanda permanente de cuidados de variadas ordens. Paralelamente, as mesmas organizações fazem uso da expressão “empoderamento feminino” para melhora sua imagem empresarial e supostamente apoiar as mulheres na busca pelo equilíbrio da balança. Tudo é marketing.

Um estudo (Kantar 2019) prova que na publicidade “enquanto 75% dos anúncios testados apresentam mulheres, apenas 6% as retratam de forma empoderada” o que revela uma absoluta dissonância entre o que é comunicado e o uso da imagem da mulher.

É necessário vincular incessantemente a imagem da mulher à necessidades desse produtos e serviços, afinal, que empresa não estaria interessada em um mercado de mais 100 milhões de potenciais consumidoras como no Brasil. Afinal, se de fato a sociedade empoderar a mulher, notadamente ela vai parar de comprar uma série de serviços que movimentam milhões de reais.

As mulheres são as preferidas do marketing para vender serviços psicológicos, terapias variadas, remédios (para depressão, ansiedade, falta de sono, irritabilidade, etc), serviços de coaching, cursos de autoajuda, serviços de suporte e outros.

Assim, poucas de si, as mulheres desde pequenas são levadas a acreditar que precisam permanentemente de apoio e tem de pagar e receber cuidados de médicos, terapeutas coaching, e uma horda de novas ocupações, algumas nem sempre regulamentadas, que possivelmente causam mais prejuízo à saúde mental das mulheres do que benefícios.

A criação dessa demanda é antiga. Forças poderosíssimas impedem que toquemos no tema, as empresas negam que exista essa força nefasta implícita em suas ações de marketing e o uso da figura da mulher de forma objetificada, opressora e fragilizada, além da imagem excessivamente sexualida, segue ( Women on View”: oito décadas de imagem feminina na publicidade).

Aliado à sobrecarga de trabalho e a acumulação de tarefas domésticas e difícil mesmo entender que não pareça necessário esse amplo conjunto de suportes. Se eles não conformassem, juntos, um mercado, até aí não teria problema nenhum, mas quando a força da economia de consumo entra na jogada, ela entra para desequilibrar desfavoravelmente qualquer outra força na disputa.

As mulheres são maioria na população brasileira, maioria empregada em determinados segmentos, mas a massa salarial das mulheres é menor e depois de décadas de luta ainda recebemos cerca de 20 a 30% que os homens em posições similares. Se considerarmos a situação das mulheres negras, a situação piora consideravelmente. Não é de se estranhar que as mulheres sejam mais alvo das síndromes e adoecimento do trabalho ( Rocha, 2008).

O “mercado” de consumidoras é impressionante e deslumbra as empresas e equipes de marketing ter tantas mulheres e se elas podem pagar porque não usar a imagem delas para vender, à elas mesmas: remédios, psiquiatras, psicólogos, terapeutas, organizadores, coaching, apoio emocional, orientação (de carreira, de organização do tempo, de casais, de relações familiares, de cuidados com filhos, et).

Depois de décadas de uso do corpo feminino na publicidade para fins comerciais ( Schaun e Schwartz, 2008) agora a mulher assume uma nova posição, a de veículo de toda fraqueza e necessidade de apoio e suporte visto que quase nunca se vê a veiculação da imagem masculina nas propagandas dos referidos produtos e serviços. Isso leva a crer que as mulheres apresentam uma sobre demanda a partir de suas supostas fragilidades.

É necessário logo dizer que não sou contra o uso desse conjunto de suportes, até porque, com a configuração atual do estilo de vida das mulheres e o esgotamento, é visível a sua necessidade e contribuição. A questão aqui é: o uso incessante da imagem da mulheres fortalece o estereótipo da fragilidade feminina e é contraria a toda politica de empoderamento feminino, posto que é contraproducente.

Tanto uso da imagem da mulheres sem consideras as suas verdadeiras expectativas e realidades só contribui para o fortalecimento dos estereótipos.

é uma importante hora das equipes de marketing repensarem a seleção de imagens, a criação de personas imaginárias e os textos que dirigem a publicidade para o publico feminino fingindo apoiar enquanto enfraquecem a figura feminina.

Ventos novos soprem sobre a publicidade e tragam uma imagem que realmente apoie o empoderamento e compreendam que homes e mulheres tem novos papéis e o equilíbrio é cada vez mais necessário, a ambos e não somente dirigido à mulheres. As mulheres já foram usadas demais, agora chega.

Publicado em 01 de Junho de 2021.

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Publicado por Ana Morais

Mestre em Gestão do Desenvolvimento Sustentável - Formação de Pessoas pela Universidade de Pernambuco, graduada em Letras – Licenciatura plena, pós graduada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, executiva sênior em educação, ensino superior, educação profissional, educação corporativa e K-12. Consultora, professora, escritora, palestrante, experiências em avaliação institucional e de ensino-aprendizagem, especialista em desenvolvimento de equipes de alta performance. Foi diretora estadual de educação do Senac PE e consultora/gerente de projetos em multinacionais de educação. Sólida experiência em desenvolvimento de equipes, liderança, recurso humanos, organizações educacionais e de desenvolvimento social e educação para o trabalho. Especialista em Competências.

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